"Home School" ou "O ano perdido".
Eu tenho escutado muito que o ano de 2020 é um ano perdido para as crianças.
As famílias mais privilegiadas estão correndo pra ocupar cada segundo do dia de filhe com cursos e aulas online, as famílias menos privilegiadas estão correndo pra manter a criança em casa enquanto muitos desses responsáveis não conseguem estar e aqueles que conseguem acompanhar essa correria que se tornou a escola, nem sempre têm internet ou equipamento pra seguir diariamente. Os professores estão enlouquecidos trabalhando dez vezes mais à disposição das dificuldades de cada aluno, sejam elas na disciplina ou no processo de assistir as aulas.
Responsáveis e professores estão cada vez mais hiperativos nas doses de desespero, mas exigem calma e concentração dos nossos jovens e crianças.
Sem grandes análises psicopedagógicas, vamos ao óbvio: uma criança não tem maturidade emocional para encarar o caos; na presença de responsáveis e professores desesperados, a criança desesperará. A angustia infantil não produz academicismos, veja bem. E tudo o que temos exigido dessas crianças são contas, números, alfabetização, inglês, todos os estados e capitais do Brasil.
Nunca tivemos aulas de artes nas escolas, educação financeira nem educação sentimental, então tudo isso parece supérfluo, certo?! (Errado.)
Crescemos estudando o que está nas apostilas e esquecemos de permitir experimentações aos nosses filhes de forma que as descobertas se tornam quase profanas quando são feitas. Entendemos que ultrapassamos os gastos quando já ultrapassamos a muito; as vezes uma pessoa não encontra sua referência artística para realizar trabalhos porque oferecemos sempre do mesmo; não sabemos sequer denominar corretamente nossos sentimentos e vivemos frustrados por isso.
E agora que temos a chance de revolucionar prioridades e entendimento de mundo, desacelerar os dias como a Terra tem feito, nós corremos mais e cobramos que corram tanto quando queremos correr, só que com perninhas mais curtas.
O ser humano cresce e se torna cruel com as crianças. O ser humano cresce e se torna cruel.
É claro que aqui eu expresso minhas idealizações e esperanças, entendendo que todos poderíamos ter tempo de atingir uma sabedoria de reestruturação. Paralelamente, essa reestruturação é pessoal e particular, de forma que é possível sob várias ópticas.
Não acredito que “as crianças sejam o futuro”. O futuro é agora. O futuro é no momento aqui, entendendo, vivenciando e almejando um futuro. E as crianças não virão, elas estão. Assim como nós estamos. O futuro é um amontanhado do que seremos, e somos todes – eu, minha mãe, meu filho e minha vó somos futuro.
É preciso acalmar o peito antes cobrar quem se acalmem. Claro que falar é sempre mais fácil que fazer – e isso é universal. Mas é comprovado que adoecer não resolve conta bancária. Que aulas de inglês forçadas não estimulam a criatividade.
Eu te desafio cobrar mais do governo e menos de você. Eu te desafio a se dar uma hora de folga durante o dia e as vezes a família toda almoçar miojo. Eu te desafio a guardar embalagens e montar um robô com a cria. Eu te desafio a ouvir mais o que você gosta e incentivar novas escutas invés de finalizar o dia de saco cheio da Galinha Pintadinha. Eu te desafio a fazerem um bolo juntos pro café da tarde. Eu te desafio a ensinar o valor do dinheiro pre filhe sem torna-le escrave disso porque você não será e elx verá. Eu te desafio a desenhar com giz na parede do portão um sol bem bonito pra desaparecer quando chover e vocês terem que pintar de novo. Eu te desafio a abraçar mais durante o dia, ouvir história e fazer vozinhas.
E isso cansa sim. Cansa tanto quanto correr com as aulas online. É uma provocação difícil essa de renovar quando a gente sente que chegou no fundo de todo estímulo criativo. No entanto, mesmo exaustos, a gente não deixa de fazer, né?! Então que façamos fora do automático um pouco. Num ensaio coletivo, que inventemos exaustões novas e mais prazerosas. Que deixemos nossas crianças serem crianças invés de robôs que estão se preparando pra era pós-apocalíptica.
Sinceramente, ninguém sabe muito o que está por vir, nunca foi justo, nunca foi legal, nunca foi correto. E sempre estivemos lá. Aqui.
Sigamos, como sempre será - mas em casa, okay?! Nada de abrir escolas, gente! As necessidades são múltiplas, vários pais precisam desse suporte porque precisarão voltar ao trabalho, mas vejam os lugares que reabriram os centros educacionais e como isso multiplicou rapidamente a doença - a solução é cobrar do Estado, não nos colocar em risco desnecessários, afinal, na escola existem possibilidades que não existem em casa x em casa existem possibilidades que não existem nas escolas.
E sabendo que esse texto é super voltado às pessoas minimamente favorecidas dentro desse caos já que o ócio criativo é um privilégio, desejo que vocês desafiem a sensibilidade do cotidiano.
Quando dizemos que perdemos (ou as crianças perderam) o ano de 2020, a gente ignora todas as outras mil possibilidades de vida que não acadêmicas e empresariais. A rotina tapa nossos olhos à multiplicidade do que somos e a gente tapa os olhos das crianças e prende-lhes as mãos numa tentativa de encaixotar as variedades para que as adaptações sejam menos dolorosas.
Nenhum impedimento de ser o que se é, é pacifico. Sempre existirá uma luta interna que reconhece que não somos números.
Porque não somos.


Que texto incrível filha!!!! É isso... 🍀
ResponderExcluirIsso aí, Brisa, belas palavras. Não deixe de fazer esses conteúdos. Parabéns.
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