"Estamos, meu bem, por um triz." [Homem com H - e Gaza]
Durante a pandemia eu comecei uma coluna sobre cinema nacional no site "Margens", porque estava fissurada em assistir a gente da gente; ainda que eu não seja uma especialista em audiovisual, eu sou, desde sempre, uma entusiasta pelo cinema e, por causa das várias linguagens que trânsito, acabo aprendendo algumas técnicas de olhar a obra. Mas não é isso que quero; apesar de, pra mim, ser inevitável observar a fotografia, os jogos de cena e as transições, a trilha sonora, etc etc, eu sou apenas um público exigente - voltei.
Alguns dias atrás eu assisti “Homem com H”, a biografia do Ney Matogrosso, interpretado elegantemente e profundamente por Jesuíta Barbosa e uma gama expressiva de atores incríveis, e tô com o filme reverberando no peito. Eu já comentei: foram 02h e 09min chorando compulsivamente, depois mais alguns minutos chorando compulsivamente pra tentar parar de chorar antes de sair da sala de cinema. Me encantei, me despedacei, elaborei minha visita à essa narrativa e me calei - porque o mundo tem vivido TÃO brutal, como sempre, que pareceu uma ruptura da realidade, quase inconveniente, exaltar belezas.
Só que então lembrei que a arte está aqui para isso: atordoar e embelezar, simultaneamente.
E dos encontros que a vida permite, a maior mensagem do filme é também o que está em falta nesses dias, e talvez por isso estejamos há anos ladeira abaixo: coragem.
Coragem de bancar as nossas utopias.
Coragem de redesenhar caixas e enfim, ser círculos.
Coragem de driblar ditaduras para não perder nossas convicções em conformismos de sobrevivência.
Veja bem: eu também tenho me silenciado sob várias agressões, enquanto cidadã, enquanto humana. Mas o recorte do filme mostra justamente esse Ney que, ainda que conflituoso internamente, não calçou sapatos que não lhe servissem. E eu me pergunto: é pra isso que chegamos em 2025? Pra ver centenas e milhares de crianças mortas em Gaza numa estratégia cretina de impedir o futuro de uma nação? É assim que vamos ser - diminuir a maquiagem e colocar roupas adequadas nas nossas angústias pra seguir dias mais suportáveis?!
Eu não sei exatamente onde quero chegar aqui, talvez em lugar nenhum, talvez eu já esteja… Mas percebo que as coisas não devem se anular porque a vida e a morte e as guerras e o egoísmo e as festas e as comemorações acontecem assim: tudo junto.
Eu sei que parece que são duas análises completamente opostas - a vida de um artista que segue vivíssimo e atuante, e um conflito que acontece durante anos, acumulando mortes (literalmente um genocídio a céu aberto). Mas nosso posicionamento perante o mundo também tem relação com nosso posicionamento perante a gente, e para nos sentirmos seguros de cobrar a política, é preciso entender a política que existe no nosso universo particular - e essas esferas não se anulam, elas se complementam... No fim, é escolher qual batalha a gente quer brigar.
Liberdades me inspiram a lembrar que também somos livres pra reinventar e reivindicar mundos - mesmo que seja um umbigo pro vez, mesmo que pareça muito pouco, mesmo que seja uma frustração sem precedentes (na verdade, com vários precedentes) - se não podemos ao menos medir nossa insignificância (ou lidar com essa angustia), que possamos gozar carregando nossas mochilas pesadas, desejosos que todos possam transitar entre linguagens, expressões e, sobretudo, fronteiras.
No mais, além da elaboração confusa dos dois temas que têm ressoado por aqui, o filme é maravilhoso em todas as suas esferas. As transições de cena são milimetricamente calculadas, contendo uma poesia que talvez só seja possível porque é o Ney quem está sendo dito. Esmir está de parabéns com todos os aplausos possíveis nessa direção e tenho a sensação de que Jesuíta nasceu pra esse papel, acolhendo os gestos, olhares, voz e força delicada da personagem. Belíssima trilha sonora e fotografia brilhante (literalmente, as cores são vivas).
"Mais cinema, por favor" - porque talvez seja através do outro que a gente possa olhar a gente, em associações medíocres que só o inconsciente faz varrer sentido.
https://www.youtube.com/watch?v=E5eMe6APmTg

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