Por que leio muito mais elEs e não elAs?

Estatisticamente, as mulheres são a maior porcentagem de pessoas alfabetizadas – nós escrevemos. Você provavelmente conhece uma escritora no seu ciclo próximo, tenha ela já publicado livros ou não. Mas onde estamos então, que não nas devidas estantes? Pois bem, estamos cozinhando, limpando, educando, cuidando, criando os filhos dos escritores que estão estampados nas capas dos livros. Estamos sofrendo com os padrões estéticos que a sociedade impõe e depois rejeitam. Estamos correndo atrás do prejuízo histórico pautado em anos de submissão à classe masculina. Estamos trabalhando para administrar uma vida que nos foi negada até pouco tempo e tentando ocupar espaços públicos e políticos que é nosso por direito mas ignoram. Estamos discutindo formas de não nos matarem.
Se você é uma pessoa minimamente consciente do que consome literariamente, já analisou a quantidade de homens que você lê e a quantidade de mulheres que ocupam sua estante. E provavelmente se questionou o porquê da diferença desses números – por que leio muito mais elEs e não elAs? 
Eu, sendo mulher e escritora, me submeto a essa analise frequentemente e vejo que minha biblioteca particular é muito mais masculina. Em todos os tempos, em todos os gêneros; da literatura clássica à marginal; HQ, romance, poesia, conto, crônica, ficção, biografias. Tendo essa observação, ano passado me desafiei a ler mulheres. Vivas.  E foi uma experiencia incrível enquanto funcionou; mas então, desandei a me trair e cá estou até hoje, consumindo muitos homens que, em forma de pseudo compensação, priorizo nordestinos, pretos e lgbt. No entanto, obviamente, homens não são mulheres. 
Se me perguntassem um mês atrás qual estilo mais me agrada eu diria que a intensidade. Bukowski, Caio Fernando de Abreu, Gabriel Garcia Marquéz, Eduardo Galeano, Luis Fernando Veríssimo, Manoel de Barros...  
É quase como se mulheres não conhecessem a verdade por detrás de uma notícia de jornal, um cachorro latindo na rua, um avião que plaina num céu desesperado, do azul desse céu, da briga por um chiclete no meio da festa junina. Qual verdade as mulheres conhecem então?

  • intervenção artística de Paloma Durante // sem título
 
Só posso concluir, e você pode se apropriar caso sinta identificação, é que estamos exaustas. E todas essas “verdades cotidianas” nunca nos passam despercebidas, mas não são prioridades quando nos dão espaços. 
É muito difícil uma mulher que é mãe, profissional e dona de casa (ou 1/3 – 2/3) ter tempo de escrever. Sim, tempo-TEMPO, tipo algumas horas no dia, silêncio ou espaço. E quando esse tempo existe, a necessidade de reverberar dores comuns é muito maior que o gato da vizinha, que é lindo, mas já está sendo citado. E a gente escreve como quem pede licença, pede desculpas, pede direitos... E a revisão do texto demora dias a fio e quando enfim é revisado, a urgência se tornou outra, como a “mulher que foi arrastada ao ir comprar pão” e poderia ser qualquer uma de nós. Sempre poderia ser qualquer uma de nós porque ser mulher é uma condição acompanhada de antecipações. A gente precisa defender obviedades como o próprio corpo porque entende que essa consciência foi adquirida sob muita batalha e então é preciso passar pra frente. “Ser mulher” nos põe em comunidade de dores corriqueiras e sempre que uma camada é desafiada sentimos que o fortalecimento se dará através da multiplicidade. Então falamos de outras formas o que já foi dito mas não chegou em todos os ouvidos. Porque mais que a beleza, o nosso espaço de fala é uma luta pela liberdade.
Essa liberdade já tão conhecida, usufruída e gozada por homens. 
Homens que chegam em casa e podem escrever seus textos porque a comida está feita, a casa está arrumada, as crianças estão direcionadas. Homens que podem ter aventuras de várias características porque sempre serão relevados. Homens que podem justificar suas falhas através de mulheres não tão bem aventuradas nas suas costas, afinal, atrás de um grande homem nem sempre há uma grande mulher mas atrás de homens falhos a culpada é sempre a mãe, a tia, a professora, a esposa, a filha. 

A escrita feminina, por muito tempo, me pareceu fraca em qualidade. Onde estão todos os acontecimentos na vida dessas mulheres?! Por quê tão repetitivas? Por quê tantas reclamações, constatações óbvias, banalidades superficiais? Onde estão os acidentes? Os impulsos? 
Talvez, meus caros, estejam num peito diligente que clama por pausas mas se ocupa com roupas no varal, com cargos grandes em empresas que as sobrecarregam e as mal saldam, com reuniões de pais que só têm ‘pais’ no nome... 
Talvez estejamos sendo tão interrompidas e silenciadas que nossas produções mal saem da gaveta. Não estamos no mercado editorial, a pubpicação é sempre penosa.
Talvez já tenha passado da hora de pararmos de questionar onde está a vivacidade da escrita mulíebre e passemos a saudar um nome feminino na assinatura de um texto, porque isso por si é vivaz – o imprevisto é não sermos estatística.

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