Dois Peitos

Muito frequentemente eu sou questionada sobre a minha “necessidade” da nudez.
“Por que tantas fotos sem roupa? Só queria entender...”
E a primeira resposta que me vem à mente sempre é: porque eu posso. Porque o corpo é meu, porque meu corpo é político, porque meu corpo é suporte. Mas fico com a reflexão dançando no meu cérebro entre curvas “Será que é necessidade de aprovação? Será que é exibição a mais do que necessário? Será que é jogo de divulgação? Eu preciso disso?” Bom, meu psicanalista pode me ajudar com as três primeiras questões; a última eu mesma me respondo: eu não preciso disso. Mas eu quero.
Antes de engravidar do Bento, meu corpo não era padrão, nunca foi. Mas meus seios... Ah, meus seios eram lindos! Pequenos a ponto de me incomodar, mas lindos, na direção certa, idênticos (aparentemente), um charme. Então me tornei mãe e meus seios se tornaram fartos. Alimento mesmo. Livre demanda, em qualquer lugar, olhasse quem quisesse olhar. Por dois anos e meio eu amamentei incansavelmente. A realização da minha até então maternidade frustrada foi ter zero problemas com a amamentação. Meu filho, que até a hora exata de nascer estava “abaixo do peso”,  em três dias saiu do hospital numa pesagem razoável e em seis meses eu era acusada nas ruas de não saber cuidar da criança por ele ser “muito acima do peso”. De fato, meus braços sentiam, mas a minha consciência leve, leve sabia que o desenvolvimento fora única e exclusivamente de leite materno. Nesse momento a minha maternagem era plena. Quando eu amamentava, ninguém mais poderia fazer o que eu fazia. Todas as minhas crises e frustrações desapareciam porque só eu podia saciar aquela necessidade. Eu era força. Eu era indispensável. E isso foi essencial.
Então decidi parar de amamentar, foi dolorido em vários sentidos e ficaram muitas cicatrizes.
Meu peito perfeito agora tem estrias, não são idênticos, flácidos. Meus seios são os seios que as mulheres buscam clínicas para recuperar. E me deixou insegura. Quanto mais eu falava pras pessoas o quanto é necessário amar o próprio corpo, mais eu sentia que ter os seios grandes, como sempre desejei, carregou muito rastro que merecia correção.
Até o dia que lembrei que fui nutrição. Que o rastro nada mais é que história.
Que meu peito não só guarda lembranças, dores, amores, apatias, desejos, sonhos, quereres, raivas e fugas. Meu peito não é simbológico apenas. Meu peito não quer dizer meu coração. Meu peito não quer dizer convite. Meu peito não é uma caixa de pandora. Meu peito não é uma gaiola pro pássaro azul.
Meu peito é físico também.
Meu peito, assim como meus olhos, meu cabelo, minha cintura, meus pés, meus dedos esquerdos (e direitos). Meu peito é alicerce. Meu peito é base. É resguardo, é tutela, é colo, é segurança, é sexo, é delírio, é prazer, é bonito, é censura.
Meu peito é extensão de mim, sequencia do que digo, busto tamanho 42-44, exposto sempre que possível.


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