SOBRE NUDEZ, SEXUALIZAÇÃO & CENSURA.

Meu nome é Brisa, tenho 27 anos e um filho de 05 anos. Trabalho com várias coisas e duas delas são produção e fotografia. Ambas podem envolver nudez. Não precisam, mas podem. E se podem, por quê não?! Alguns diriam que não deve. Alguns diriam que não devo apresentar esse tipo de arte ao meu filho. “Pra tudo tem uma idade”.
Mas qual idade, eu pergunto?


Com quantos anos de mundo a gente passou a entender o corpo como algo proibido? Até onde sei, todos temos as mesmas composições corpóreas, ou quase isso. Até onde eu sei, a nudez aparece em revistas que são postas na sala de espera do dentista. 
Os indígenas, tribos africanas e outras tantas, sempre tiveram suas ‘partes intimas’ num posicionamento de exposição. Mas não numa exposição egocêntrica e sexual, e sim numa exposição do natural. Crianças brincam juntas e nuas no quintal de casa, nas praias... 
Então crescem e passam a se cobrir. Sem entender bem porquê sob a justificativa de que os adultos não sabem lidar com corpos em desenvolvimento. Mas sabem lidar com corpos desenvolvidos? Sabem lidar com corpos infantis? 
E da nudez a gente passa pra padronização, pro que é permitido estar exposto e de quem. 
A bem verdade é que nós estamos, sem querer muitas vezes, criando crianças moralistas pautadas na moral e bons costumes e esperamos que quando crescerem elas possam se desconstruir. Que puta atraso, né?!


O corpo é um contexto geral: dedos, cabelos, peitos, bundas, bucetas, paus, joelhos, mãos, braços, cérebro, veias, unhas, bocas, narizes, orelhas... 
Há quem tenha fetiches por pés, e eles estão lá, a mostra. 
O fetiche não tem relação com a nudez, então. O fetiche tem relação com a sexualização.
É comprovado que o ser humano tem curiosidades sob o próprio corpo desde sempre. Na sua primeira infância. Na sua adolescência. Na sua velhice. Na Roma Antiga, na França durante Comuna de Paris, Gregos e Troianos, na Primeira e Segunda Guerra Mundial, nos atentados à Síria, no Brasil em 2020. Não a toa a reprodução é algo constante desde sempre e sempre será. 

O corpo enquanto algo intrínseco à existência “do homem”; para existir é preciso ter um corpo. Até mesmo uma existência robótica exige um suporte, uma placa, um aparelho, uma máquina inteira. Nós somos a máquina inteira. 


Meu filho já me acompanhou em alguns ensaios que os modelos estavam semi-vestidos ou totalmente nus. Na parede das nossa casa ele pode ver resultados dos meus trabalhos e têm peitos e bundas nesses resultados.
Veja bem, não defendo aqui sob nenhuma óptica a sexualização da criança, defendo a liberdade do corpo. 


Mulheres são estupradas enquanto vestem burcas ou mini saias. Homens são estuprados vestindo ternos ou shorts sem camisa. Crianças são estupradas antes de saberem pronunciar o próprio nome assim como idosos são violados quando já não podem (ou podem) vociferar os seus.
A nudez não me parece o que há em comunhão de todas essas problemáticas.

Vejo que a problemática está na falta de educação sexual e em como a censura se utiliza disso para, cada vez mais cobrir nossos corpos invés de ensinar sobre nossos desejos.
O desejo é natural e sim, “pra tudo tem uma idade”, adolescentes em sua hormonização desproporcional baterão muitas punhetas e siriricas. Investigarão seus corpos e valorizarão seus prazeres. Conhecer a si é experimentar limites. Por sua vez, reconhecer que corpos têm limites permite que você estenda essa sabedoria ao corpo do outro, aceitando os nãos, respeitando os tempos.
Usar o corpo nu enquanto suporte de arte é tão físico e material quanto usar seu corpo enquanto barreira de um ataque policial. É tão físico quanto se postar em greve, ajoelhado, que, aliás, é tão físico quanto se ajoelhar em reza.
O corpo, apesar de suas funções físicas reprodutivas, é tão vasto quanto qualquer outro órgão.
Censurar um corpo nu é como tirar a culpa de uma doença social. Cuidemos da base, do primeiro plano, do chão de terra batido que é a desinformação. Cuidemos para que nossas crianças cresçam entendendo o corpo enquanto objeto correto, equilibrado, e não como objeto cuja única finalidade é sexual.
Blindo aqui a ideia de que todos devem sair nus pelas ruas – não devem. Mas também não devem ser tomados enquanto patrimônio público caso saiam porque não deveríamos dever nada.
O atentado ao pudor é uma pejorativa jurídica de quem estiver nu pelas ruas, seja por lazer ou protesto, mas é totalmente aceitável se rentável numa revista +18 (ou num filme do xvideos que qualquer pessoa tem acesso).
Quando a gente perde a liberdade do que é nosso por direito desde que nascemos, perdemos também a chance de pensar em quantas liberdades perdemos conforme as conquistamos. O nosso corpo tem voz e perdemos a liberdade de falar. O nosso corpo é criativo e perdemos a liberdade de exerce-la. A censura do corpo pré-determina as censuras subsequentes das ações do corpo. Censurar a nudez é uma forma de tornar rentável quando exibido.
Insisto nessa questão porque enquanto mulher, mãe e artista, eu me questiono várias e várias vezes qual o limite do que produzo e compactuo com a minha certeza de que o limite não deve ser judicial 1964. O limite do corpo, da nudez, da exposição, deve partir única e exclusivamente do respeito à forma com que o outro se percebe e se permite. 

E assim, quando pudermos entender enfim que o corpo (nosso ou do outro) não é um objeto ou algo além do que somos como um todo, talvez consigamos aceitar que a sexualização não está ligada à tarjas ou a falta delas. Talvez enfim compreendamos que o suporte pele não está a venda e não é uma provocação, além da política artística caso queira.
Crianças não precisam perambular entre Teatros Oficinas; mas também não deviam ser proibidas de perambular em camarins, porque a nudez não deveria por si oferecer uma ameaça à infância, porque a nudez em si não é sexo ou depravação. Homens! Segurem suas mãos e suas barguilhas!! Porque a nudez é só o que somos sem as roupas que usamos para nos defendermos da falta de educação que toda uma sociedade carrega por muitos e muitos anos. A censura é capitalista e atingiu seu objetivo: veja, desde que pague. Tenha, desde que leve. Nada mais é de graça.
Mas tem uma certa graça aqui, não é mesmo...?!


Comentários

  1. Sinto vontade de sentar ao seu lado Brisa e ler seus textos contigo, só para conversar por horas sobre cada frase, cada posicionamento e cada sentimento que te move ao escrever o que escreve. Muito bom te ler. Obrigada!

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    1. Opa! rs Agradeço a leitura e sigo sempre desejando por encontros, conversas e trocas! <3

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  2. Uma coisa que deve ser observado quando se fala em nudez é a Higiene. Nosso ambiente é muito sujo em diversos lugares. Tem pessoas que escarram em bancos, assentos públicos. Andando nas ruas não é difícil ver manchas de sangue em alguns lugares... Tmb existem Insetos que causam doenças.
    Pra sair pelado na rua por exemplo, seria importante ficar em pé na maior parte do tempo. Ter as partes íntimas vestidas é importante tmb para a saúde e proteção. Algumas doençasv Íntimas são difíceis de serem tratadas além do tratamento ser oneroso.

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